
Conversar com as pessoas a respeito de tudo é o que procuro fazer sempre. Seja no dia a dia ou em viagem por qualquer cidade ou país.
E motorista de táxi é uma das melhores pessoas para isso. Ele roda bastante e está em contato com gente dos mais diferentes graus de cultura e interesse. E olhe que estou falando de motoristas das mais diversas idades, cores, raças e oriundos de diferentes regiões.
Vou me fixar num senhor negro, aposentado há muito após ter trabalhado 17 anos na Light, “o melhor emprego que já tive” e motorista de praça desde então.
Supereducado, com um português perfeito, o assunto acabou se concentrando no carro que ele havia comprado para trabalhar sem nenhum tipo de isenção, por motivos que ele não entendia, já que todos os carros anteriores ele comprara com todos os descontos – que chegam a 28% do preço total do carro, como fez questão de dizer.
Mesmo pagando bem mais caro, disse que estava muito satisfeito com o carro, o primeiro daquela marca que possuia. E foi explicando em detalhes as vantagens em relação aos modelos anteriores.
O que mais me impressionou foram os argumentos racionais dele para ter feito a compra mesmo pagando 28% mais caro em razão dos benefícios em economia de combustível, manutenção, conforto e segurança para o passageiro.
A conversa me fez lembrar de um texto que escrevi há pelo menos cinco anos neste espaço e no qual eu falava da ganância de algumas pessoas em consumir simplesmente porque dispõem de dinheiro.
Aliás, vemos com frequência na imprensa que o modelo tal do carro tal, do sapato tal, da caneta tal, da bolsa tal que custam milhares, quando não milhões de reais, já estão sendo disputados por alguns perdulários.
Isso me trouxe também à lembrança artigo da revista Nature (23/9/09), aqui repercutido por vários veículos de comunicação, no qual havia sido publicado o trabalho “A safe operating space for humanity” (algo como “Um espaço operacional seguro para a humanidade”).
De autoria de 29 pesquisadores de todo o mundo, o texto dizia que “os cientistas propuseram nove elementos que são fundamentais para as condições de vida na Terra: mudanças climáticas; acidificação dos oceanos; interferência nos ciclos globais de nitrogênio e de fósforo; uso de água potável; alterações no uso do solo; carga de aerossóis atmosféricos; poluição química; e a taxa de perda da biodiversidade, tanto terrestre como marinha”.
O grupo chegou à conclusão de que as atividades humanas já ultrapassaram os limites adequados para três dessas condições: mudanças climáticas, biodiversidade e concentração de nitrogênio na atmosfera.
Ultrapassar essas fronteiras não resulta em desastres imediatos, pois elas foram estabelecidas com margem de segurança. “Entretanto, se continuarmos nesse caminho, veremos efeitos como a desestabilização das calotas polares, a formação de grandes áreas sem vida, mudanças nas monções africanas e indianas e inclusive a transformação da Amazônia em uma enorme savana”, declarou o líder do estudo, Johan Rockstrom, da Universidade de Estocolmo.
Sete críticos independentes convidados pela revista Nature para analisar o estudo, concluíram que, de uma forma geral, os números apresentados não são um consenso ou muito menos fatos comprovados. Porém, eles consideram a idéia de limites inovadora e dizem que pode ajudar as pessoas a verem melhor os problemas ambientais e climáticos como um todo.
* Com Lucila Cano.
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Engel Paschoal (engelpaschoal@uol.com.br) é jornalista e dá cursos e palestras sobre responsabilidade social.
Este artigo somente poderá ser reproduzido ou publicado com autorização prévia do autor.
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