RESPONSABILIDADE SOCIAL E ÉTICA

LUCILA CANO*
lcano@terra.com.br

5 de novembro de 2010 0:12 

Dona Aparecida foi às urnas

A história a seguir é real e aconteceu no domingo, 31 de outubro, dia do segundo turno das eleições 2010 no Brasil. Antes dela, preciso registrar que só alguns dias depois das eleições descobri na internet um material excelente, editado pelo Tribunal Superior Eleitoral: a cartilha “Perguntas e Respostas – Eleições 2010”, com respostas claras para cerca de 150 possíveis dúvidas do eleitor. O site do TSE esclarece que a obra foi elaborada pela Assessoria de Imprensa e Comunicação Social e direcionada aos veículos de comunicação. Durante a avalanche de informações que antecedeu as eleições, pode ser que alguém tenha falado da cartilha, não sei. Mas isso, agora, não importa mais.

Dia de eleição

Lá pelas 11 horas da manhã, dona Aparecida dirigiu-se ao colégio que abriga a sua seção eleitoral. Dia bonito, quente e ensolarado, ao contrário do que prognosticaram os noticiários da televisão. Na seção eleitoral não havia filas. Ela foi prontamente atendida por uma moça simpática, atenciosa, que verificou os seus documentos e a convidou a entrar na sala. À mesa, duas outras jovens, na faixa dos 25, talvez 30 anos, também a receberam sorridentes. Dona Aparecida entregou o título à primeira mesária e aguardou que ela localizasse o seu nome no livro de assinaturas. Pois não é que a moça foi procurar a lista das “Aparecidas” antes da lista das “Anas”? Como não encontrasse o nome, pulou várias páginas e foi para a lista dos “Augustos”. A busca não demorou muito, porque a eleitora logo se prestou a auxiliar a moça, explicando-lhe que “Ap” vem depois de “An” e muito antes de “Au”. Funcionou. Ao chegar em casa, inconformada, dona Aparecida contou o ocorrido à família. Todos riram muito da situação. Um sobrinho lembrou das patacoadas escritas por estudantes em provas de vestibular. Outro foi mais condescendente: a moça poderia estar com sono, ou sonhando com um passeio na bela manhã de domingo. Ou, talvez não tivesse o hábito, o traquejo de consultar um dicionário.

Qualidade para a educação

O relato de dona Aparecida me deixou curiosa. Fui à cartilha do TSE. À página 37, para a pergunta “Todo eleitor pode ser mesário?”, a resposta: “Não. Só os maiores de 18 anos em situação regular perante a Justiça Eleitoral. Os mesários são nomeados, de preferência, entre os eleitores da própria seção eleitoral e, dentre estes, os diplomados em escola superior, os professores e os serventuários da Justiça”. Nas páginas seguintes, há respostas para as nomeações de emergência, caso a mesa não esteja completa no dia da eleição. Os esforços do TSE para que tudo corra bem são muitos e devem ser reconhecidos. Os mesários são treinados para cumprir a sua missão. De mais a mais, penso eu, quando é que a gente ia imaginar que uma pessoa de bom nível de instrução não soubesse a sequência do alfabeto? Vai ver a moça sonhava mesmo com o dia de sol. Esse episódio me levou à releitura de alguns textos. Em 1932, por exemplo, já havia um grupo preocupado com os rumos da educação no País. O texto do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, assinado por importantes formadores de opinião da época, se mantém atual e está disponível na internet para quem quiser ler. Também lembrei de alguns problemas com os quais convivemos, já faz tempo: sobram alunos, mas faltam escolas e professores; aos professores faltam condições de aperfeiçoamento e remuneração; a qualidade do ensino superior ficou aquém da crescente oferta de cursos universitários; a evasão escolar é alta; poucos dos que sabem ler entendem o que leem. O Compromisso Todos pela Educação, lançado em setembro de 2006 por educadores, empresários, gestores públicos e líderes sociais se movimenta para conquistarmos uma educação de qualidade até 2022, quando do bicentenário da Independência do Brasil. A presidente eleita, em campanha, posicionou-se pela qualidade da educação. Então, ficamos assim: torcendo para que dona Aparecida tenha melhor história para contar depois da próxima eleição.

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* Homenagem a Engel Paschoal (7/11/1945 a 31/3/2010), jornalista e escritor, criador desta coluna.

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Lucila Cano é jornalista especializada em projetos editoriais, consultoria
empresarial e produção de textos sobre Responsabilidade Social e Ética.
a coluna., criador desta coluna.



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