“O prejuízo que a presença dos animais causa é medido em milhões de dólares”, diz a professora Denise Selivon Scheepmaker, do Instituto de Biociências (IB) da USP. Ela é a coordenadora do Laboratório de Estudos Evolutivos das Moscas-das-Frutas do IB, que pesquisa aspectos relacionados à vida destes animais (que são no que as temidas larvas se transformarão quando adultas).
As moscas pesquisadas pelo laboratório são do gênero Anastrepha. Estes animais são também conhecidos como “verdadeiras moscas-das-frutas”: a distinção se deve ao fato de ser necessário deixar claro que as pesquisadas não são as moscas do gênero Drosophila, o tipo que costuma circundar as bananas e que estão mais presentes no cotidiano. “As Anastrepha são uma praga para a produção agrícola, pelo fato de que as fêmeas perfuram a casca dos frutos em início de maturação para depositar seus ovos. Já as Drosophila não causam esse tipo de estrago, pois as fêmeas sobrevoam as frutas, se alimentando de leveduras que crescem em frutos em estado avançado de maturação”, explica a professora Denise.
Necessidades
Estudar as Anastrepha é, então, uma obrigação para que a ciência colabore para a melhor produtividade do setor agrícola. Moscas deste gênero estão presentes em toda a América do Sul. Atacam goiaba, mamão, manga e outras frutas. Em outras partes do planeta, espécies diferentes de outros gêneros das moscas-das-frutas causam estrago semelhante. Por conta disso, o combate a essas pragas demanda atenção de cientistas de todo o globo.
O laboratório do IB tem parceria com universidades e instituições de pesquisa de outros países. “Temos que manter um diálogo constante. Há espécies que se manifestam em outros locais da América do Sul, e conversar com os pesquisadores dessas regiões contribui para que saibamos o que vem sendo estudado em outros lugares”, diz a professora. Uma parceria recente estabelecida pelo laboratório foi realizada com pesquisadores da Espanha e possibilitou a caracterização molecular de alguns genes envolvidos na determinação do sexo das moscas – isso foi um primeiro passo para que, posteriormente, no laboratório do IB, os cientistas conseguissem alterar o sexo dos animais, transformando fêmeas em machos.
O conhecimento sobre esses genes pode auxiliar uma das estratégias mais utilizadas para a erradicação das moscas-das-frutas: a produção em laboratório de machos estéreis em grande quantidade. Quando liberados em áreas de fruticultura, a grande presença desses indivíduos faz com que a população geral de moscas acabe por se reduzir. A manipulação dos genes de determinação do sexo traz a possibilidade de construção de linhagens transgênicas produtoras apenas de machos, aumentando a eficiência dos métodos de produção de machos em larga escala.
Vida de mosca
Apesar de representarem um grande estrago para o agronegócio, as Anastrepha não têm existência muito longa na terra. A expectativa de vida desses animais é, no máximo, de pouco mais de quatro meses – três dias no estágio de ovo, de 10 a 15 dias como larva, outros 15 como pupa (momento intermediário entre a larva e o indivíduo adulto) e 90 dias como moscas propriamente ditas.
Os indivíduos adultos, inclusive, são responsáveis apenas indiretos pelos danos às frutas. Quem se alimenta das polpas são as larvas – que percorrem interior do fruto na busca por seu alimento. Os adultos preferem outras substâncias: no laboratório do IB, são alimentados por uma composição à base de mel, açúcar e proteínas.
As fêmeas introduzem os ovos nas frutas por um componente do seu corpo que, em aparência, lembra um ferrão.
Existem vários tipos de frutas que agradam as moscas. A professora Denise Selivon Scheepmaker explica que a escolha das frutas pelas moscas é um processo complexo, que analisa, entre outros critérios, os componentes químicos presentes na casca da fruta.
O laboratório
No formato atual, o Laboratório de Estudos Evolutivos de Moscas-das-Frutas está estabelecido desde 1997. Entre suas realizações, está um estudo sobre a Anastrepha fraterculus, uma das espécies de moscas-das-frutas mais importantes do ponto de vista econômico. Por muito tempo, a comunidade científica discutiu a possibilidade de espécies parecidas da mosca estarem estarem sendo tratadas como se fossem uma só. O estudo, de autoria da professora Denise Selivon Scheepmaker, conseguiu distinguir quatro espécies diferentes da mosca. “A caracterização dessas espécies é fundamental para a aplicação adequada de métodos de controle populacional não agressivos ao ambiente”, explica a docente.
A professora aponta que um princípio que norteia o laboratório é a aplicação, em suas atividades, de uma mentalidade que soma a pesquisa básica (a destinada à produção acadêmica e acúmulo de conhecimento) e a pesquisa aplicada, cujos rendimentos podem ser transferidos para uso comercial. Os métodos para a erradicação da Anastrepha são um exemplo concreto.
“O importante é que está sendo formada uma massa crítica ligada ao assunto. Os alunos se interessam, agrada a eles atuar em um laboratório que produz pesquisa básica que tenha potencial para aplicação em medidas de controle do inseto-praga. E o intercâmbio com outras instituições é essencial para que isso cresça ainda mais”, destaca.
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