
Prezado leitor, não espere, com este texto, uma posição definida a respeito do assunto. Até porque a expressão “direitos humanos” é, a um só tempo, vaga e abrangente.
Vaga porque é definida como os direitos naturais que cada pessoa tem. E abrangente porque implica em que todos têm esses direitos. Ou, como se diz, somos todos iguais perante a lei.
É aí que a coisa se complica. Só que não estou aqui para esclarecer mas para, perdoem-me a pretensão, levar à reflexão.
O filme “O leitor” é estrelado por Kate Winslet, a mesma de “Titanic”. Quem duvidava da capacidade dela como atriz, vai descobrir que ela realmente é.
Produção americana de 2008, vencedor do Globo de Ouro e indicado a cinco Oscars, o filme se passa na Alemanha. Conta a história de uma bilheteira de bonde que, aos 30, 35 anos, ajuda um jovem de 15, 16 anos, que estava passando mal à entrada do prédio dela. Sobe com ele até o seu apartamento porque ele estava vomitando, ajuda-o a limpar-se e depois o leva até a casa dele.
Após dois meses de recuperação, o rapaz volta para agradecer com um buquê de flores. Iniciam então um romance que, além dos passeios e relações sexuais usuais, inclui algo muito peculiar: ele passa a ler para ela inicialmente livros da escola e, depois, romances vários.
De repente ela desaparece porque, de bilheteira, havia sido convidada a trabalhar no escritório da empresa. Ele se desespera à procura dela e só a reencontra anos depois: aluno da faculdade de direito, ele participa do seminário de um professor que leva os alunos para acompanharem o julgamento de algumas nazistas, ela entre as quais, acusadas de milhares de mortes em Auschwitz.
Ela não sabe que ele acompanha o julgamento. Para o rapaz, agora com uns 20, 22 anos, aquilo o angustia e fica claro para os demais colegas e o próprio professor que ele sabe de algo. Sem revelar o que é, ele confirma que isso poderia mudar o julgamento.
Uma das principais provas contra a acusada é um relatório detalhado a respeito de mortes de dezenas de judeus trancados por fora numa igreja atingida por bombardeios aliados e que se incendeia.
As demais acusadas testemunham que ela escreveu o relatório de próprio punho, o que ela acaba admitindo, fazendo dela a única a ser condenada à prisão perpétua, enquanto as demais pegam apenas prisão de quatro, cinco anos.
Fica subentendido que ela adorava que o rapaz lesse para ela e que ela desapareceu ante a possibilidade de promoção no emprego porque era analfabeta. Portanto, não poderia ter escrito o relatório. O que não a livra pela morte de tantas pessoas. Mas no mínimo mais alguém também deveria receber a prisão perpétua.
E isso aconteceu tão somente porque o rapaz se negou a revelar o que sabia e a dar seu testemunho a favor dela no julgamento, com receio do seu envolvimento na história e das possíveis consequências.
Ele se remoe pela atitude, mas não quer correr o risco de admitir que teve um envolvimento com ela, o que provocaria uma situação embaraçosa para ele e sua família.
Assim, o filme mostra que ela foi profundamente prejudicada porque não teve reconhecidos os seus direitos, apesar de que ela poderia admitir que a fuga do emprego e a admissão da responsabilidade pelo relatório foram decorrentes da vergonha de se declarar analfabeta.
Sei que fiquei em cima do muro mas, como disse desde o início, minha intenção era provocar a reflexão. Espero ter conseguido.
* Com Lucila Cano.
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Engel Paschoal (engelpaschoal@uol.com.br) é jornalista e dá cursos e palestras sobre responsabilidade social.
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