VISÃO NORDESTINA

JOSÉ LUIZ MALTA ARGOLO
jlargolo@yahoo.com.br

1 de fevereiro de 2010 13:32 

Deprede nossa amendoeira que depredaremos seu ônibus!

Acordei com o barulho peculiar de facão em madeira verde. Pulei da cama sem precaução e magoei minha coluna cervical; mesmo com uma dor quase insuportável caminhei até à varanda, de onde avistei o motorista do ônibus da Polictur com um facão a mutilar nossa amendoeira. Ele havia aberto o alçapão superior do ônibus – um ônibus de quatro metros de altura – e por ali cortava impiedosamente os galhos da árvore.

Gritei da minha varanda: – Pare com isso, rapaz! O que você está fazendo? Ele respondeu: – Vou cortar os galhos que não deixam o ônibus passar! Ameacei: – Se você depredar nossa amendoeira depredaremos o seu ônibus! Incontinenti, avisei ao porteiro – que já estava protestando, também – para que chamasse os moradores.

Os meus gritos acordaram minha esposa e meus dois filhos e eles se vestiram apressadamente para descer comigo. Não deu tempo, o motorista correu e arrancou com o ônibus. Só pudemos fotografar a traseira do veículo enquanto dobrava a esquina (ver foto).

Desci me arrastando, apoiado em meu filho Matheus, para ver os estragos. Foram poucos (ver foto), graças à nossa providencial intervenção. A mesma sorte não teve essa árvore no final de 2009, na minha ausência, quando um indivíduo que mora na rua de uma quadra adiante, mandou mutilá-la, simplesmente porque o impedia de ver o mar, a partir da janela de sua varanda.

A cada agressão sofrida por nossas árvores aprendemos uma lição e preparamos nova estratégia de defesa. Da última vez, aproveitei a reunião do condomínio para entregar carta aos moradores, explicando os benefícios que as nossas árvores ornamentais prestam à comunidade e escrevi várias orientações que poderiam ser seguidas para a proteção das amendoeiras. Houve boa recepção por parte dos condôminos e eles prometeram ajudar. A partir de agora, no caso do porteiro antever uma potencial agressão, ele interfonará e os moradores que puderem descerão acompanhados de todas as pessoas que estiverem em casa. A idéia é trazer muita gente para protestar contra o(s) malfeitor(es). Seguiremos aquela máxima: a união faz a força.

No evento desse domingo (31.01.10), em que ameacei reunir pessoas a fim de depredar o ônibus, obviamente não seríamos capazes de fazê-lo, porque não somos bárbaros. Na verdade, o que pretendíamos mesmo era espantar o agressor e nisso logramos êxito.

Aos poucos estamos nos acostumando a defender o patrimônio vegetal da nossa rua com os meios de que dispomos e sem nada esperar dos órgãos ambientais, porque entendemos que eles servem somente para abrigar apaniguados políticos. O comportamento do motorista do ônibus, desse domingo, não é diferente do da maioria das pessoas. Caso houvesse um carro ou mesmo algum objeto impedindo o trânsito ali, seguramente aquele motorista criminoso teria parado o veículo, que dirigia, para solicitar passagem, sem jamais provocar danos ao patrimônio de outrem. No entanto, como se trata de uma árvore que a cultura dele não admite valor algum, seu procedimento foi o de agredir, imediatamente.

As atitudes cabíveis a fim de organizar a comunidade do lugar onde resido, estou certo de que as adotei. Espero colher os frutos desse trabalho, brevemente, quando o sentimento de amor à causa ambiental desabrochar nos meus vizinhos, pelo menos amor à causa ambiental da nossa rua.

Nesse momento estou a retornar do hospital (do meu plano de saúde), onde recebi a medicação indicada para aliviar dores na espinha dorsal. Os medicamentos são aqueles de sempre: uma Dispropan injetável e vários comprimidos de Dorilax, estes para serem ingeridos de um em um a cada seis horas.

A esta altura, as dores já passaram e eu sinto uma sensação agradável de dever cumprido.



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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).



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