Pense em uma coisa fora de propósito! Pensou? Agora, reúna um punhado de montadores de automóveis gananciosos e outro tanto de fabricantes de motocicletas e quadriciclos não menos ambiciosos, junte a esses uma cambada de ricaços aventureiros com seus veículos novos e possantes, escolha um trajeto pré-determinado repleto de obstáculos naturais, coloque postos de controle para monitorar os carros, que você tem um rally. Isto posto, acrescente desprezo ao meio-ambiente, esnobismo e ostentação. Pronto? Você acaba de criar o “Rally dos Sertões”.
A moderna sociedade industrial em que vivemos estimula essas excentricidades como se fosse a coisa mais natural do mundo. Nos rallys, os competidores esbanjam opulência e ostentam suntuosidade perante populações pobres, situadas nas paragens que eles invadem, infligindo nelas um rastro de destruição, curiosidade e medo, enquanto a Mídia não se cansa de exibir esses eventos, enaltecendo uma prática que deveria ser abolida.
Eis aí, o calcanhar de Aquiles do capitalismo. Os meios de comunicação mais eficientes curvam-se à força dos patrocínios. Ninguém se desfaz da galinha dos ovos de ouro.
Em nosso observatório, os rallys que temos visto utilizam nos veículos um aparato de tecnologias duras, as quais possibilitam aos concorrentes alcançarem locais dispersos pelo sertão, onde os carros convencionais nunca sonhariam chegar. Os equipamentos sofisticados que eles conduzem, incluem GPS – Global Position Sistem ou Sistema de Posicionamento Global, em que 24 satélites posicionados permitem orientação aos tripulantes (piloto e navegador) de modo a não se perderem no ambiente ermo; e vão do 4WD – tração nas quatro rodas; 4×4 HI; 4×4 LOW; passando pelo Blocante de Diferencial; pelo HI-Lit – um macaco especial; pelo Guincho; até equipamentos indispensáveis como o Positraction; a Patesca ou “Catarina” e o Snorkel – tomada de ar elevada que evita entrada de água no motor, entre os principais acessórios. Existe também, a Cinta. Mas, essa é para quem tem consciência ecológica – coisa rara ali – porque só serve para evitar potenciais danos a alguma árvore que porventura sirva de apoio ao cabo de aço do guincho, na remoção do veículo atolado.
Cabe, pois, o protesto: com veículos assim não há sertão que agüente!
No decorrer do rally, os carros desenvolvem velocidades altíssimas, mesmo em estradas esburacadas. Quando o ritmo se torna lento devido à falta de estrada, o automóvel ou mesmo a SUV – Sport Utility Vehicle (veículo utilitário esportivo) lança mão daqueles equipamentos para superar todo tipo de obstáculo. O resultado dessas incursões fica exposto no terreno, após a passagem dos aventureiros. Parece mais uma paisagem do Iraque ou Afeganistão ocupada pelo Taleban, onde os americanos despejaram suas bombas. Os aficionados competidores de rally chamam as voçorocas, deixadas para trás, de “facão”. Quando vem a chuva, a erosão carrega o solo que os pneus “frontiera” soltaram, direto para a calha do ribeirão, assoreando-o. Na trilha pouca coisa fica no lugar. Pedras são arrancadas, plantas esmagadas, árvores são mutiladas e quando laçadas pelos cabos de aço dos guinchos têm a parte do lenho que conduz a seiva seccionada, provocando sua morte. Pelo caminho ficam cercas arrombadas e animais atropelados e/ou mortos, mas os prejuízos materiais dos camponeses nem sempre são ressarcidos. Nem a esmola das cestas básicas, que pouco ajuda.
Não dá para se olhar o rally de outra maneira, senão como uma aventura desprezível, encaminhada por gente hedonista que invade nossos lugares, leva perigo para as pessoas e degradação para o ecossistema.
Li, nos jornais ultimamente, que o Rally Paris-Dakar está suspenso, porque guerrilheiros africanos, postados em algumas áreas, ameaçaram impedir a competição, ao longo do trajeto que passa por suas terras. Aqueles idealistas decerto estão cientes de que nenhum benefício advém dessa corrida, mas ao contrário, nada sobrará dela, senão a poeira do mal.
Na América Latina, entretanto, as fronteiras estão abertas. O Brasil, especialmente, tornou-se o paraíso dos jipeiros, uma casta rallynista alienada que impõe sua estupidez nas corridas para lugar nenhum.
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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).
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