Na infância eu fui coroinha – ajudava o padre a rezar missa. Devo a isso certamente, minha simpatia pelo capitalismo. Como todos sabem, a religião católica e o capitalismo andam de mãos dadas, embora de vez em quando apareça um Leonardo Boff para complicar as coisas.
Quando jovem eu admirava alguns comunistas. No meu bairro, o João Vicente Freitas Neto, colega de infância que morreu prematuramente, em acidente aéreo na terra de Fidel, era uma pessoa íntegra, idealista.
Aos vinte e cinco anos o destino empurrou-me para o comércio. Fiquei lá por trinta e dois janeiros, contrariado, pois interiormente sempre fui socialista. Mas, eu morria de medo de Nikita Khrushchov/Leonid Brejnev e seu regime, em que os filhos delatavam os pais e ninguém podia deslocar-se de um lugar para outro sem autorização do governo.
Meu olhar capitalista de liberdade e progresso tropeçava no socialista mais justo. Na minha pequena empresa procurei conciliar esse antagonismo, como pude.
No fim da década de1980 o capitalismo já não era o mesmo. A derrocada da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – URSS, paradoxalmente interferira de forma negativa no desenvolvimento capitalista. O mundo estava livre da URSS, mas também, da obrigatoriedade de resguardar os princípios norteadores da livre concorrência e da justiça social, porque não mais havia o receio do comunismo.
As alterações do sistema vieram de avião a jato, como uma corrida alucinada das empresas a fim de se tornarem cada vez mais fortes. Para isso fizeram e fazem fusões e transformam-se em grupos econômicos e vão ficando maiores até explodirem em um “big bang” inexplicável, espalhando destroços para todos os lados, decretando a morte dos substantivos liberdade e progresso. A recente crise mundial não me deixa mentir.
Agora, tentam juntar os cacos. Porém, a cola e os pedaços são do mesmo material remanescente e não deve erigir um sistema confiável, capaz de sustentar o domínio do mercado. Tudo indica que o capitalismo está próximo do fim e com isso ameaça deixar um legado sombrio – uma aterrorizante expectativa.
A história da nossa civilização, nos últimos setenta anos, contrapõe capitalismo e socialismo em uma disputa onde não há vencedor.
A meu ver o que está errado não é o império de qualquer um desses sistemas, capitalista ou socialista, porque tanto um como o outro são geridos pelos seres humanos e, conforme sabemos, se houvesse boa vontade por parte das pessoas, as iniqüidades não existiriam. Prevaleceria o império da ética.
Ora, se não houvesse iniqüidades não se necessitaria de regimes políticos, nem econômicos, tampouco de polícia e menos ainda de justiça.
Pode ser um raciocínio simplório, descabido até, porque as pessoas são movidas por inclinações negativas, como a avareza e a cobiça, inerentes à natureza humana, todavia destruidoras da inteligência e da felicidade.
Os regimes sociopolítico-econômicos que orientam a nossa civilização baseiam-se na premissa da prosperidade universal que privilegia uma dualidade terrível – o mais inteligente e menos escrupuloso.
Esse é o perfil da sociedade em que vivemos. Os ricos querem ser mais ricos ainda e os pobres desejam sair da pobreza a todo custo. Um e outro não respeitam o seu próximo e muito menos o ama. Caridade, solidariedade, enraizamento e amor à terra são alguns valores que há muito deixaram de ser cultivados.
Nesse imbróglio reina o “salve-se quem puder”.
Não sei se ainda há tempo para frear a locomotiva capitalista que parece desgovernada. Dizem que o comunismo despencou porque era ateu. O capitalismo, por seu lado, tem muita fé nas entidades abstratas. Quem sabe chegou a hora da mão de Deus parar a locomotiva antes que caia no abismo?
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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).
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