RESPONSABILIDADE SOCIAL E ÉTICA

LUCILA CANO*
lcano@terra.com.br

10 de dezembro de 2010 18:13 

Brasileiro cria sistema que elimina lixões

O contato com o dia a dia de catadores do lixão de Gramacho, em Duque de Caxias, RJ, inspirou o engenheiro Edgard Bottini, especialista em caldeiras e termodinâmica, a criar um sistema de sanificação e classificação de resíduos, o Processo Sanclar.

Enquanto trabalhava na montagem e entrega técnica de sistema de captação e queima em flare (chaminé) dos gases do lixão, Bottini conversou muito com os catadores. Pôde constatar pessoalmente o nível de miséria em que essas pessoas viviam, entre elas muitas crianças, além do risco diário a que se submetiam pelo manuseio direto da imundície. Isso foi em 1996.

A partir dessa experiência, Bottini se dispôs a encontrar uma solução que impedisse o contato humano com dejetos. À medida que os estudos avançavam, desafios se sobrepunham a eles e ampliavam as possibilidades de uma solução para o problema do lixo urbano.

Foram doze anos de pesquisa incessante desde que o engenheiro foi afetado pela dura realidade dos catadores de Duque de Caxias. Uma realidade que tende a se repetir em todo o País, enquanto a lei que regulamenta a destinação do lixo não for integralmente respeitada e cumprida (a Política Nacional de Resíduos Sólidos foi sancionada pelo presidente da República em agosto de 2010).

Sanificação e classificação de resíduos

A aplicação do Processo Sanclar, patenteado por Bottini, já está sendo estudada por algumas prefeituras e/ou regiões que congregam vários municípios, incluindo a geração de energia elétrica integrada na planta.

Uma usina de proporções reduzidas, para processamento de 180 toneladas/dia e geração de energia conjunta, com área de instalação de vinte mil metros quadrados, por exemplo, é concluída no prazo de oito meses. Nela ocorre a sanificação dos materiais, a qual elimina chorume e metano e neutraliza qualquer elemento contaminante.

Em uma etapa seguinte, o Processo Sanclar realiza a separação mecânica dos principais componentes do lixo e prepara os produtos passíveis de reciclagem. Eles saem da usina limpos, secos e sem odores. O material celulósico, sempre em grande proporção, sai seco, descontaminado e em volume bruto reduzido.

Nesse processo pode estar uma solução viável para a ameaça da poluição e dos problemas associados aos lixões e aterros sanitários, além do tão esperado fim do contato do homem com o lixo contaminado.

Segundo Bottini, “trata-se de um sistema que, além de ser um Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), pois não polui nem o ar, nem o solo, nem a água, incrementa e valoriza a reciclagem e inclui os catadores na sociedade, dando-lhes profissão e assistência social”.

Benefícios sociais

Embora o Processo Sanclar seja um negócio que Bottini queira viabilizar economicamente, a preocupação social dele é grande e voltada para a inclusão dos catadores: “Já pensou, catadores transformados em funcionários registrados, com assistência social e oportunidades de evolução?”, diz o engenheiro.

E que outros benefícios o sistema proporciona? Da lista fornecida por Bottini, alguns destaques são: lixo sem chorume; nada de ratos, insetos, mau cheiro nem contaminação; materiais recicláveis limpos, com maior valor agregado para a venda e mediante nota fiscal, o que estimula compradores e prefeituras; poluição zero tanto para o solo quanto para a água, com controle e monitoramento permanentes; poluição do ar muito próxima do zero, restrita ao C02 emitido pela usina, mas sem contaminação; alto crédito de carbono e eliminação total de metano.

O material celulósico remanescente do Processo Sanclar é seco e de alto poder calorífico, o que permite queima completa em suspensão em caldeiras ou fornos, com grande rendimento e sem emissão de poluentes ou partículas. A geração de energia elétrica é da ordem de 1,015 kW por quilo de lixo bruto.

Bottini credita ao seu invento um processo com sustentabilidade integral: o fim do lixo urbano, lixões e aterros sanitários, enquanto municípios arrecadam seus impostos e catadores conquistam empregos dignos.

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* Homenagem a Engel Paschoal (7/11/1945 a 31/3/2010), jornalista e escritor, criador desta coluna.

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Lucila Cano é jornalista especializada em projetos editoriais, consultoria
empresarial e produção de textos sobre Responsabilidade Social e Ética.
a coluna., criador desta coluna.



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