DO SITE DO MCT
Enfrentar o rigor das condições climáticas do continente mais gelado do planeta. O desafio tem atraído cada vez mais cientistas brasileiros a Antártica, em especial, as mulheres. A geógrafa Rosemary Vieira, por exemplo, integrou a equipe da expedição Deserto de Cristal, a primeira do Brasil a desbravar o interior do Continente Antártico, no final de 2008. Um marco na história da pesquisa no País, a viagem durou quase 60 dias, dos quais 45 em acampamento sobre o gelo.
Rosemary fez parte da equipe de quatro pesquisadores do Núcleo de Pesquisas Antárticas e Climáticas (Nupac), do departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O grupo gaúcho saiu de Porto Alegre em 19 de novembro de 2008, e retornou em 18 de janeiro de 2009.
A Antártica não tem habitantes permanentes, embora tenha uma população provisória de cientistas e pessoal de apoio nas bases polares. Rodeia o Pólo Sul, e por esse motivo, está quase completamente coberta por enormes geleiras (glaciares). É o Continente mais frio, mais seco, com a maior média de altitude e de maior índice de ventos fortes do planeta.
Apesar das condições adversas, na opinião de Rosemary, o esforço é compensador. “Foi uma grande surpresa, tinha muita coisa para pesquisar. Foram 45 dias de trabalho e, desses, 11 dias foram de tempestades, mas os dias que nós conseguimos trabalhar foram muito proveitosos”, ressalta a professora de geografia física.
Muitos estudiosos consideram o Continente um grande deserto polar, pela baixa taxa de precipitação no interior. O nome da expedição (Deserto de Cristal) também faz referência à ocorrência dessa formação no platô Antártico, a região central mais elevada do Continente. Ali, ventos descem do platô em direção à periferia varrendo toda a neve precipitada, expondo o gelo sob a superfície.
A cientista destaca como resultado, o material coletado para auxiliar nos estudos sobre a morfologia e geologia glacial. “Fizemos coletas de sedimentos em vários pontos. Por meio dos depósitos deixados pelas geleiras faremos uma reconstrução do comportamento do manto de gelo da Antártica Ocidental. A partir daí, vamos faremos a datação, para saber quando começaram os depósitos”, explica Rosemary.
As amostras coletadas na viagem foram enviadas para os laboratórios da Universidade do Maine, nos Estados Unidos, e serão analisadas com a participação de pesquisadores brasileiros. De acordo com a cientista, o grupo pretende voltar ao local em dois anos. “É uma pesquisa inédita para o Brasil em termos de geologia e complementará outras pesquisas que também fazem essa reconstrução do passado da Antártica”.
Mulheres
A carioca, radicada em Friburgo (RS), também já participou de quatro excursões antárticas, a última em janeiro último. Desde a expedição Deserto de Cristal ela passou a atender uma grande demanda de palestras e entrevistas, principalmente pelo fato de ser mulher, mas ela lembra que outras cientistas brasileiras têm participação significativa no Continente Antártico.
Segundo Rosemary, o interesse tem sido maior pelo ineditismo. Ela afirma que boa parte dos projetos voltados a Antártica é chefiado por mulheres. “Grande parte delas trabalha nas ilhas e em outros lugares, o meu trabalho foi inédito no sentido de ser no interior onde o grupo de mulheres reduz bastante. Isso foi bom porque abriu caminho para outras pesquisadoras, na próxima expedição, vou levar outras mulheres comigo”, adianta.
A cientista concorda com a existência do preconceito em relação ao trabalho das mulheres, mas não deixou o problema afetar sua carreira buscando tratamentos iguais. Ela também acredita que essa realidade tem mudado no meio científico. “O número de cientistas mulheres chefes de grupos, de acampamentos e de pesquisas está aumentando bastante e a equipe respeita. Desta última vez que nós fomos a Antártica (em janeiro último) a metade do grupo era de mulher”, relata.
Pesquisas na Antártica
Há 25 anos, o País tem se limitado a realizar pesquisas e marcar presença na periferia do Continente, onde instalou a estação Comandante Ferraz em 1984. Dessa vez, a equipe brasileira, financiada com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq/MCT), trabalhou a 2.100 quilômetros ao sul de Ferraz e a mil quilômetros do Pólo Sul.
O grupo da Deserto de Cristal vive um momento importante, com a criação do Centro Polar e Climático que sucedeu o Nupac. O único centro latino-americano polar que vai explorar as interligações das duas regiões polares do planeta com as mudanças do clima e suas conexões com o clima do Brasil.
O novo centro ganhou um edital do Fundo de Infraestrutura do Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep/MCT) no valor de R$ 1 milhão. Além dos laboratórios, o centro deve ter infraestrutura para pesquisa e para o ensino de nível superior e médio sobre mudanças climáticas. Ao mesmo tempo, com o edital dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia, será realiza uma ação integrada com sete universidades que resultará na criação do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera, liderado pelo Centro Polar e Climático da UFRGS.
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