Gostava de futebol. Nos dias de jogo chegava cedo aos estádios. No campo da Pajuçara e no do Mutange possuía duas cadeiras cativas, em cada um, reservadas lá em cima, no setor de melhor visibilidade, uma para si e outra para o rádio. Este, um enorme aparelho que ele ligava a todo volume, antes de chegarem os figurões e de começar o prélio. Às vezes, mal os times adentravam o campo, ouvia-se um gol saído do seu rádio, que deixava todos atônitos; tratava-se de uma disputa em realização noutro local.
Iniciada a partida, logo baixava o volume e ficava, comportadamente, a assistir ao espetáculo.
Mulato simpático, discreto e de pouca fala, devido à sua cultura que não era muita. Atencioso, tivera sorte na vida. Presentemente, ganhava muito dinheiro explorando uma casa de prostituição das mais freqüentadas: a “Boate Areia Branca”, situada no bairro Canaã, parte alta de Maceió.
Dia de jogo, nas cadeiras, ficava à espreita, olho no campo e ouvido atento à conversa das autoridades. Não rara a presença do governador de Alagoas, Dr. Afrânio Salgado Lages, no local. Era torcedor do CRB como ele e nos momentos alvíssaros, na hora do gol regatiano, Mossoró não perdia ocasião, aproveitava o ensejo para um dedinho de prosa. Com o tempo tornou-se conhecido. Ao chegar ao campo, o Governador sempre o cumprimentava. Ora um aperto de mão, ora um leve toque no ombro, mas nunca passava em branco. –“Como vai o Senhor? Está por aqui, não perde jogo, não é?” Falava a Autoridade.
Aquela deferência tinha grande significação para ele, que viera do nada. Quando criança, ajudava seu pai, um carroceiro que não o deixara estudar. A muito custo, depois da morte prematura do seu genitor, concluiu o primário. Inteligente, ouvia com atenção, o que as pessoas falavam e discernia facilmente, o que fosse mais útil assimilar. Sua filosofia de vida era lógica e prática. Viu lacunas em alguns mercados; pensou que, se caminhasse na direção certa, poderia dar-se bem. Observou, com perspicácia, algumas carências. Pessoas endinheiradas necessitavam de divertimento. Outras pessoas careciam de dinheiro para as suas sobrevivências. Atender às necessidades, de ambas as partes, deveria representar um bom negócio. Contudo, havia entraves. O mais difícil era começar. Depois…
Naquela mesma noite, correu ao baixo meretrício. Tivera uma idéia. Visitaria Joana, uma moça com quem gostava de exibir-se nos salões. Ela era leve como uma pena e formava, com ele, um par invejável, sincronizando passos, volteios e evoluções que a dança exigisse. Podia ser tango ou bolero; tocasse a valsa, o samba, baião ou frevo; não fazia diferença o gênero musical. Juntos davam show que as pessoas paravam para vê-los. A seu ver, os bailarinos dos filmes americanos eram pintos frente a ele. Sem exagero, os “experts” no assunto consideravam o rapaz um dançarino de primeiro quilate. Daquela vez fora aconselhar-se com a amiga. Não esperava muito. Na verdade, não era bem uma consulta, provavelmente, nem da opinião dela precisasse. O fato é que desejava revelar seus planos a alguém. Sentir-se engenhoso, admirado, com possibilidade de vencer na vida. Aquela amiga, melhor do que ninguém para ouvi-lo. Interiormente, sentia uma queda por ela e desconfiava haver reciprocidade. Depois - pensou com egoísmo - ela poderia muito bem fazer parte da empresa. Por que não? Morena bonita, jovem, cheia de vontade. Um pitéu para atrair a clientela.
Voltou satisfeito. Elaborara um projeto. Por que não arriscar?…
Logo abriu uma casinha junto ao bordel “Duque de Caxias”, no Jaraguá. Começou com a Joana, depois vieram a Maria da Glória e a Silvinha. O negócio cresceu e a casa mudou-se para a Rua Sá e Albuquerque onde ganhou nome. Chamava-se Boate Alhambra e diversamente das instalações toscas da sua antecessora, esta ganhara luxo, desde piso acarpetado, paredes decoradas com pinturas de paisagens exóticas, salão bem iluminado, bar com estoque variado de bebidas, quartos limpos e arejados, lençóis que cheiravam à limpeza e, o principal: um mulherio de fazer inveja aos “sheiks” árabes.
Ganhou fama por ser uma casa diferenciada, em que pé-rapado não tinha vez. Não demorou a sobressair-se das demais, dominando o ramo, por vários anos, até que a sociedade maceioense pressionasse ao poder público pela desativação daquele antro, no Jaraguá, um bairro tradicional.
Depois disso, o conjunto das atividades exploradoras da “vida fácil” arranjou espaço no “Canaã”, um terreno próximo da Gruta de Lourdes, para o qual se transferiu e ali prosperou.
Mossoró permaneceu líder naquele negócio. Andava bem vestido, preferencialmente, em terno branco de linho diagonal inglês, sapatos a brilhar e chapéu de massa. Possuía um Ford Gálaxie, do ano, automóvel grande e luxuoso, que conservava polido, chamando atenção nos passeios das tardes de segundas-feiras, ao lado das garotas de sua preferência.
Um dia, estava a caminhar no Comércio, quando avistou, do outro lado da rua, o Governador passeando com assessores e cumprimentando o povo enquanto caminhava. Afrânio Lages era um homem simples, embora um tanto sisudo, mas não vaidoso. Chegara ao poder por nomeação do regime autoritário que governava o País. No entanto, o cargo não lhe subira à cabeça. Honesto, administrava o Estado com eficiência e lisura. Estava ali pela satisfação de ver as pessoas e falar com elas.
Mossoró não perdeu tempo. À distância, mesmo assim, acenou de onde se encontrava, falando bem alto: - “Dr. Afrânio!… Excelência!… Vai lá em cima, hoje?”
A autoridade parou. Reconheceu o homem que corria em sua direção. Olhou para os seus colaboradores, deu meia-volta e entrou, apressadamente, no carro oficial.
Benedito Mossoró, dono de um puteiro que ficava lá em cima, no bairro Canaã, ante os olhares zombeteiros das pessoas, disse desconsolado: -“ Eu só queria perguntar a Sua Excelência se ele ia ao jogo!”
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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA - Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN - Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA - Lavras/MG).
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