THIAGO ETCHATZ
DA ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO DA UFRJ
Nesta edição, se inicia a série Por uma boa causa que abordará os impactos da prática esportiva na saúde física e mental do atleta. Para o primeiro dos quatro capítulos, o Olhar Vital consultou Alexandre Palma – doutor em Saúde Pública, professor da Escola de Educação Física e Desportos (EEFD/UFRJ) e estudioso da área de treinamento de esportes de longa duração – para avaliar até que ponto o esporte é saudável.
Questionado sobre a saúde dos atletas de alto rendimento, que são submetidos a excessivo desgaste físico e obrigados a conviver com a dor durante a intensa rotina de treinamentos, o estudioso avalia: “se entendermos ‘saúde’ como ausência de doenças, podemos crer que os atletas de alto rendimento não são saudáveis, uma vez que as lesões e as dores estão presentes. Por outro lado, se, como nos ensina o médico e filósofo francês Canguilhem, compreendermos ‘saúde’ de uma forma mais complexa, como a capacidade de adoecer e se recuperar, de agir e reagir, ou ainda lembrando que a possibilidade de abusar da saúde faz parte da saúde, então, os atletas são extremamente saudáveis”.
A luta contra o cronômetro e a quebra de barreiras para se alcançar um índice olímpico, ou mesmo, um recorde só possuem uma receita: uma rotina de disciplina e superação. Multiplicada pelos anos do desempenho em alta performance – desde a formação do esportista, muitas vezes durante a infância – ela acaba por tornar massacrante, física e mentalmente, a vida do esportista. “Atletas de alto rendimento necessitam realizar elevadas cargas de volume e intensidade para alcançarem o máximo desempenho esportivo”, avalia Alexandre.
A aposentadoria precoce do nadador australiano Ian Thorpe aos 24 anos, ilustra esse quadro. O torpedo, como ficou mundialmente conhecido, iniciou sua carreira internacional em alto nível aos 15 anos, em 1997. Nos nove anos de carreira acumulou nove medalhas olímpicas (cinco de ouro, três de prata e uma de bronze) em Sidney 2000 e Atenas 2004, além de 18 recordes mundiais (13 individuais e cinco em revezamentos) nas provas dos 100, 200 e 400 metros livres. Já sem alcançar os mesmos resultados e sofrendo com uma fratura na mão, febre glandular e demais pequenos problemas, Thorpe decidiu se livrar das 12 horas de treino diário, fisioterapia e dieta regrada e gastar a fortuna que conquistou.
“Possivelmente, esforços elevados e especializados levam a lesões. Contudo, a pouca exercitação física tem sido associada a uma variedade de problemas, inclusive ortopédicos. Talvez, para o homem comum, fosse interessante, como sugeriram os gregos na antiguidade e muitos cientistas na atualidade, o exercício físico moderado”, analisa o professor. E complementa: “para amenizar os problemas existem algumas alternativas. O treinamento de força (musculação) e de flexibilidade (alongamentos) são alternativas. A estruturação dos treinamentos, considerando ciclos de recuperação; a alimentação e hidratação adequadas; a realização de outros tipos de treinos, como o treinamento funcional; são algumas outras formas de tentar amenizar os problemas físicos”.
Numa comparação entre o sistema muscular esquelético de um atleta de alto rendimento e de um indivíduo sedentário, Alexandre Palma afirma que em hipótese alguma o esportista esteja comprometido. O professor explica que o Colégio Americano de Medicina do Esporte (American College of Sports Medicine/ACSM) oferece sugestão para a prescrição de exercícios físicos para não atletas, tanto para atividades aeróbias, quanto de força e flexibilidade. “Porém, tais sugestões não funcionam com atletas de alta performance por duas grandes razões. Cada modalidade tem sua especificidade e para tais atletas as cargas devem ser elevadas, pois o que está em jogo é o máximo rendimento esportivo”, afirma.
Um fator importante que implica diretamente no desgaste físico dos profissionais do esporte é o calendário das competições esportivas, cada vez mais apertado. “Atualmente, ele está bastante atrelado aos interesses comerciais. Um patrocinador de uma equipe ou de um atleta quer, em última instância, divulgar sua marca. Assim, quanto mais a equipe ou o atleta estão expostos, mais a marca é divulgada. E isso tem consequências óbvias sobre o processo de recuperação dos atletas e sobre as lesões”, conclui.
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