Nuvens de fumaça fétida e sufocante de várias cores saem dia e noite das chaminés da empresa de industrialização de madeira Berneck, localizada em região densamente habitada da cidade de Araucária e em parte da área de proteção ambiental do Passaúna (APA), vizinha da represa do Passaúna, manancial de abastecimento da Região Metropolitana de Curitiba.
Além da fumaça, nuvens de pó gerado no processo industrial da madeira espalham-se por bairros residenciais do entorno da empresa tornando a vida dos moradores insuportável. E um barulho infernal, 24 horas por dia.
“Meus dois filhos vivem fazendo inalações por causa da fumaça e da poeira da Berneck. Nossa casa tem que ficar fechada o dia todo. Veja aqui a cor de minhas cortinas, que foram lavadas na semana passada”, mostra dona Maria à colunista. “As minhas cortinas servem de filtro para as chaminés da Berneck”, diz dona Maria. “Não, Maria. Os filtros da Berneck são nossos pulmões”, corrige, Mário, marido de Maria.
O casal e seus dois filhos, de 5 e 7 anos, moram na Rua Siriri, uma das muitas que formam o bairro Jardim Califórnia, que faz divisa com a indústria de madeira.
“O que era ruim, ficou muito pior”, afirmou Osvaldo, que, como Maria e Mário, pede para não ser identificado por temer represálias da Berneck. Muitos moradores do Jardim Califórnia estão entre os 1,2 mil funcionários da empresa que produz mais de 1 milhão de metros cúbicos de madeira beneficiada por ano.
“As chaminés da Berneck são as chaminés do inferno”, sentencia dona Iolanda, antiga moradora do lugar, entremeando a fala com acessos de tosse que atribui à poluição expelida pela fábrica vizinha. “O médico já sugeriu que eu mude para outro bairro, longe daqui, mas como posso deixar tudo que consegui com trabalho duro, meu e do meu marido nos meus 70 anos de vida?”, acrescentou dona Iolanda.
“Não entendo por que empresa como a Berneck conseguiu se instalar em bairro residencial e ainda recentemente conseguiu ampliar sua área industrial para 120 mil metros quadrados. Também não entendo como essa empresa, como também a Cocelpa, há anos, contaminam a cidade de Araucária e seus moradores, impunemente”, declarou o contador R., que acrescenta: “Acho que nossas autoridades não têm nariz, olhos e pulmões”. A declaração do contador é imediatamente corrigida por seu carona, Vilson: “Acho que esses caras são protegidos por figurões do Estado. Tem até a história de um avião privado que voa oficialmente”.
O empresário W., que tem pequena empresa em Araucária e é morador do Jardim Califórnia lembrou que nenhum dono ou executivo da Berneck e da Cocelpa moram na cidade que poluem.
A fumaça da Berneck e da Cocelpa pode ser vista a quilômetros.
A catinga do ar bafeja não só os moradores de Araucária como também alcança municípios vizinhos. “O cheiro da Berneck e da Cocelpa é a boa-vinda que damos aos que trafegam pelas BRs e PRs que cortam a nossa cidade”, disse Clodoaldo, que todo dia cruza a fedentina por duas vezes, pois mora em Araucária e trabalha em Curitiba.
A fumaça e o mau cheiro da Berneck se intensificam durante a noite e nos dias de chuva, quando é menor a dispersão de poluentes.
“Será que vocês não podem mandar nossa queixa para Copenhague?, pediu Mário, em apelo dramático.”Nós também temos o direito de viver !”, afirmou com desalento e, ao mesmo tempo, com esperança.
Copenhague, Mário, está muito distante para sentir o mau cheiro das fábricas que poluem nossa cidade. As autoridades responsáveis por zelar pela qualidade do ar que respiramos é que devem tirar a máscara e sentir o cheiro nauseabundo.
Não há matéria relacionada.
7 de abril de 2010
26 de agosto de 2009
11 de agosto de 2009