A palavra vivissecção por si só já nos traz um arrepio se traduzirmos o seu significado ao pé da letra: “cortar vivo”. Para que e por quê? Experiências com animais vivos são mesmo necessárias? Até que ponto podemos brincar de Deus e sermos senhores da vida e da morte?
A vivissecção passou a ser passível de punição depois da lei 9605/98. Diz o artigo 32 que é crime realizar experiência dolorosa em animais vivos, ainda que para fins didáticos ou científicos, quando existirem recursos alternativos.
A Comissão de Defesa do Consumidor, das Minorias e do Meio Ambiente, aprovou um substitutivo ao Projeto de Lei 1153/95 que define regras para a utilização de animais em atividades de ensino, pesquisa e experimentação, bem como a sua criação para essas finalidades. Entre os procedimentos autorizados estão os que servem para obtenção de conhecimentos destinados a prolongar a vida ou melhorar a saúde do homem, bem como testes para verificação da eficácia e segurança de produtos, a fabricação de substâncias destinadas à alimentação do homem, e para obtenção de novos conhecimentos. Nesses casos, caberá ao responsável pelo experimento apenas demonstrar sua relevância para o progresso da ciência ou do ensino, e indicar a inexistência de métodos alternativos capazes de levar ao mesmo resultado. Quer dizer, nada vai mudar. Se for para o “bem do homem”, todo tipo de crueldade é lícita.
Se a comissão é de ética, por que não priorizá-la? Por que não pesquisar métodos alternativos? É bem mais cômodo criar animais em laboratórios, retalhá-los vivos e depois jogá-los fora quando nada mais sobrar de útil em suas maltratadas carcaças. Será que não existem outras formas e fórmulas que minimizem o sofrimento deles? A reutilização da mesma cobaia em experimentos seguidos constitui-se uma maldade sem limites. Muitas delas passam a vida inteira à mercê dos cientistas, confinadas em minúsculas gaiolas, sofrendo cirurgias e inoculação de vírus, e só a morte as priva do martírio ininterrupto.
Deixar que os próprios pesquisadores julguem a necessidade e a importância das experiências em animais é semelhante a um parecer sobre alimentação vegetariana feito por uma associação de açougueiros.
Estamos em plena era da informática, dos computadores e robôs, capazes de criar milhões de imagens e seccionar virtualmente cada órgão com precisão. Por que precisamos utilizar cobaias vivas se nem sempre seus organismos reagem como o do ser humano?
Isso me faz lembrar a atitude ética de alguns estudantes da Esalq ( Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiróz) que certa vez se recusaram a coletar insetos para espetá-los vivos com alfinetes num mostruário e a participar de experiências que expunham inutilmente os animais à dor. Na época causaram muita polêmica e foram até ridicularizados por alguns colegas e professores. Mas conseguiram o que queriam: não foram obrigados a montar o tal mostruário.
Fala-se muito de métodos “humanitários”, mas tudo continua igual. Claro, as cobaias não têm voz para reivindicar seus direitos, para gritar sua dor. Algumas, inclusive, têm as cordas vocais extirpadas para que não façam barulho nas monstruosas experiências.
Já dizia George Bernard Shaw: “Atrocidades não são atrocidades menores quando ocorrem em laboratórios, ou quando recebem o nome de “pesquisa médica’.”
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Ivana Maria França de Negri é escritora, colunista fixa de vários jornais e integrante, há 10 anos, da SPPA – Sociedade Piracicabana de Proteção aos Animais.
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