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Muito tem se falado, nos últimos anos, sobre agricultura familiar, no Brasil, país com uma história de iniqüidade na distribuição de terras que remonta aos tempos do Império. Porém, com o surgimento do MST – Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, a sociedade tomou ânimo novo, pois que finalmente encaminhava-se uma ação efetiva a fim de se contrapor à expansão dos latifúndios. De fato, o MST apesar de algum desvio de rumo, como no caso dos bloqueios de estradas, mesmo assim vai, aos trancos e barrancos, arrancando um pedacinho de terra aqui outro acolá e com isso, abrindo uma janela no horizonte dos mais pobres. Por essa brecha, muitas famílias estão a extrair da terra o seu sustento e Alagoas retoma mesmo incipientemente, a produção de diversos alimentos básicos que, ainda, são trazidos de fora.
Todavia, essa desconfortável condição atual de importador de tudo, exceto de açúcar e álcool, nem sempre foi assim.
Algumas décadas atrás, antes de 1960, na zona da mata do Estado de Alagoas, quando o desenvolvimento da cana-de-açúcar ainda engatinhava, havia uma agricultura familiar arraigada em todas as propriedades rurais, especialmente nas de menor porte (até 100 hectares), onde famílias de lavradores, que moravam e trabalhavam para os donos das terras, podiam plantar lavoura e criar animais domésticos de pequeno porte, para o seu próprio consumo, sem ônus, em áreas das fazendas explicitamente indicadas para aquela finalidade, pelos fazendeiros. Graças à sabedoria ancestral existiam sempre terras descansadas para o cultivo, porque não se repetia mais de uma vez o plantio de uma cultura no mesmo lugar, por determinado período.
Naquele tempo, as fazendas eram auto-suficientes na produção de víveres, utensílios, ferramentas agrícolas, material cerâmico e de construção, meios de transporte e até maquinaria simples. Mas, nem por isso deixava de haver comércio de produtos manufaturados e/ou industrializados que, também tinham vez. Os negócios normalmente se davam mais nos dias de feira, quando os agricultores levavam o excedente da sua produção para vender, enquanto adquiriam o que estava a lhes faltar. É verdade que as pessoas eram menos sofisticadas e, obviamente, os seus anseios, hábitos e costumes, mais fáceis de serem atendidos; para tanto bastavam as coisas e os objetos preparados ali, fato que propiciava a produção e circulação de riquezas na própria região. Havia, decerto, pouca miséria e o povo parecia feliz.
O tempo hodierno oferece menos oportunidade às famílias camponesas alagoanas porque muito da sua cultura tradicional ficou para trás, a partir de meados de 1960, quando um repentino surto de progresso atingiu a indústria sucro-alcooleira, influenciado pelo comércio com os Estados Unidos, que elevou o preço do nosso açúcar a patamares jamais alcançados, favorecendo a corrida em busca de solos para o plantio de cana-de-açúcar, oportunidade em que muitos agricultores desfizeram-se de suas terras, estimulados por oferta milionária, dada a grande valorização que o mercado imprimia. Fora um passo na direção do abismo que dera um segmento dos mais produtivos, empurrado pela cobiça e a desinformação, levando consigo um percentual significativo de pessoas ligadas à terra para o inferno das favelas, na metrópole. Concomitantemente com essa situação, leis trabalhistas esquecidas vieram à tona ameaçando os fazendeiros, especialmente os pequenos, com potenciais custos indenizatórios, em face da presença de famílias agricultoras, nas suas terras. Empurrados ao paredão, os fazendeiros apressaram-se em expulsar das propriedades os moradores remanescentes, para fugir das sanções. Nesse cenário, Sua Majestade, a cana-de-açúcar tomou conta de tudo.
Obviamente, para o Estado, a emenda foi pior do que o soneto, porque de súbito, como em um passe de mágica, Maceió inchou o seu ventre pela migração de milhares de refugiados dos canaviais.
Agora, no entanto, uma cortina se abre na paisagem de Alagoas, onde a força do MST se faz presente em contraponto ao processo histórico de desagregação e exclusão imposto pelo sistema fundiário, em vigor.
O Movimento dos Sem Terra avança vagarosamente, sobre o território alagoano, emperrado muitas vezes por diretrizes equivocadas, mas assim mesmo, ocupando espaços importantes em prol de uma condição social mais digna para os excluídos.
À célula do MST alagoano cabe uma tarefa das mais árduas que é a de formar novos agricultores, atraindo-os e educando-os, fazendo-os fincar raízes na terra e resgatando uma nova agricultura familiar.
Hoje, nas feiras quinzenais de camponeses, ligados ao MST, que se realizam em Maceió e outras cidades de Alagoas, são encontrados gêneros, tais como, inhame, macaxeira, batata, milho, feijão e fava, arroz, abóbora, farinha de mandioca, frutas e verduras, tudo vindo diretamente do campo, livre de fertilizantes químicos e agrotóxicos. Até víveres muito requisitados e raros, como ovos e galinhas caipiras já podem ser achados, ali.
É um reinício promissor.
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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).
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