Faz quase 60 dias que uma tragédia sem precedentes atingiu a população de 22 cidades, situadas na zona da mata alagoana e não se vislumbra o encaminhamento de ações efetivas, por parte do Governo de Alagoas, no sentido de resolver o problema crucial das pessoas alcançadas pela enxurrada, ou seja, a reposição de suas moradias perdidas.
Sabe-se que recursos existem e a burocracia para a aplicação deles foi grandemente reduzida, de sorte que, os caminhos foram pavimentados para uma breve devolução aos pobres dos bens que a correnteza levou. Todavia, isso não se dá porque a máquina governamental do nosso Estado é enferrujada e nem mesmo a contextura favorável consegue fazê-la movimentar-se com rapidez.
É possível que o meu olhar de ex-empresário seja crítico demais para avaliar o comportamento dos muitos quadros que compõem a administração pública de Alagoas, notadamente aqueles que são nomeados por indicação política – os conhecidos funcionários comissionados. Desses, poucos querem trabalhar realmente, pois eles estão cientes de que o seu tempo no respectivo espaço será tão efêmero quanto o mandato do seu amigo, o parlamentar que o colocou, ali. Nesse tempo exíguo em que o empregado público eventual ocupa um birô, na repartição, ele se detém mais em familiarizar-se com o ambiente, enquanto cria novas amizades entre os efetivos, quando existem, do que em desenvolver o trabalho inerente à sua função. É verdade! Eu disse quando existem quadros permanentes, porquanto há várias secretarias no Estado de Alagoas que são constituídas basicamente, de cargos comissionados, embora os avanços da cidadania, nos dias atuais, estejam a atrapalhar muitas mamatas políticas, promovendo sensível redução do número desses empregos.
Aos leitores que possam estar surpresos com a esta minha perdulária viagem elucidativa, asseguro que tive o único propósito de deixar-lhes cientes do que se passa no âmago de nossas repartições, a fim de facilitar sua compreensão a cerca da demora como as decisões são tomadas, por aqui.
Em contrapartida à lerdeza das atitudes positivas, a mão leve dos gatunos é precisa e ligeira. Recentemente, alguns oficiais do Corpo de Bombeiros Militar foram flagrados ao fazer desvio de materiais destinados às vitimas das enchentes. Esse fato só veio à tona porque houve denúncia por parte de membros da própria Corporação militar. Contudo, a Imprensa tem informado com veemência a postura fiscalizadora do Ministério Público, cujos componentes parecem estar vigilantes contra potenciais rapinagens.
O presente momento, no entanto, informa uma complexidade incomum, dada a situação que envolve a sucessão governamental, com grande chance de reeleição do titular do Governo, além da renovação/manutenção de cadeiras nos parlamentos estadual e federal, bem assim no Senado, fato que abre um leque de opções para a ladroagem.
Nesse contexto, a fartura de dinheiro em contas bancárias, controladas pelo Governo estadual, para ajuda aos flagelados, propícia oportunidade para que pessoas inescrupulosas tirem partido da situação, sobretudo prefeitos apoiadores dos inúmeros candidatos, durante a campanha eleitoral deste ano.
Assim, quando esse evento trágico ocorreu, durante o mês de junho próximo passado, véspera do desencadeamento do processo eleitoral, transpareceu nas fisionomias dos políticos, apresentadas pelas lentes das objetivas, que para eles, aquela tragédia caíra do céu, não apenas literalmente, mas também, para alavancar muitas candidaturas, em 2010.
Alerta, Ministério Público!
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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).
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