VISÃO NORDESTINA

JOSÉ LUIZ MALTA ARGOLO
jlargolo@yahoo.com.br

8 de junho de 2010 18:16 

A nascente

Na adolescência uma das coisas que mais me agradava era curtir as férias em nossa Fazenda Poço Verde, uma propriedade montanhosa, cerca de 200 hectares, com vários cursos d’água e florestas, no município de Flexeiras/AL.

Certo dia, acordei com vontade de explorar a mata. Saí a caminhar logo cedo, com itinerário definido, de sorte que, por volta das 11 horas, quando o calor apertasse, eu deveria estar próximo de uma bica, na subida dos “Parós”, à sombra da mata, onde saciaria a sede e me deliciaria com um banho frio, água quase gelada, que fluía perenemente de um córrego, ali.

Quando deixei a casa e adentrei pelo mato, a vegetação estava repleta de orvalho e minhas roupas ficaram encharcadas. Meu corpo arrepiava-se de frio e vinha algum desconforto enquanto caminhava, porém à medida que o sol ia despontando e os minutos passavam, a coisa se invertia e o fato de estar com as vestes úmidas propiciava uma sensação agradável.

Eu fora preparado. Vestia camisa de tecido grosso e mangas compridas, calça jeans e sapatos de campo. Na cabeça portava um boné e na cinta um facão. Antes de invadir a mata propriamente dita, o entorno era coberto de vegetação arbustiva, com muitas plantas espinhentas, além de tiriricas e umas sensitivas que nós chamávamos de malícia. Havia carrapicho e pega-pinto – matos que furam, grudam na roupa e dão trabalho para remover. O piso irregular continha de quando em quando um toco escondido em que eu tropeçava, por falta de costume. Como não havia caminho, só uma vereda quase imperceptível, o acesso ao meu destino tinha obstáculos de tudo o que era jeito.

Aos poucos alcancei o sopé da encosta. Já era mata fechada e fiz uso do facão para abrir caminho. Avancei devagar, esbarrando aqui e ali, em algum empecilho, ora uma pedra, ora um buraco ou mesmo um tronco fora de lugar, enfim não havia moleza para nenhum caminhante. Subi, subi e quando me senti cansado, sentei no chão. Formigas me atacaram e eu retomei a caminhada para fugir delas. Não demorou e cheguei ao topo, de onde fui descendo para ver a outra face da montanha. Subitamente, encontrei-me em uma clareira cuja flora arbustiva assemelhava-se à do entorno da floresta, só que em determinado local, a terra firme dava lugar a uma depressão ocupada por terreno brejoso com plantas paludícolas e uma palmeira alta, de fuste longo e espinhoso. Sentei-me devagar, preocupado em não cair no barranco. Olhei ao redor e quando me familiarizei com o ambiente, vi que existiam alguns olhos d’água fluindo incessantemente. Contei cinco deles e fiquei embevecido ante aquela maravilha da Natureza.

Estive lá fascinado, não sei quanto tempo mais. O assobio do vento, o clima ameno, o canto dos pássaros, o barulho da água a brotar suavemente como um encanto; a paz que reinava naquele lugar enlevava-me.

De repente, aterrissou desajeitada, a um metro de mim, perdiz enorme, do tamanho de uma galinha. Ficou ali por alguns instantes e ao dar-se conta da minha presença, bateu asas depressa; foi-se embora para outro lugar, decerto recriminando-se pela própria imprudência.

O aparecimento da ave serviu para despertar-me do enlevo. Relutante, tomei o caminho de volta e pelas 11h30min achei-me sob a bica a banhar-me deliciosamente, conforme havia planejado.

Alguns anos mais tarde, desiludido com o casamento, resolvi deixar Alagoas. Vendi, ao meu irmão mais velho, a parte (1/8) da Fazenda que me tocava, entre outros bens de que dispunha, com o propósito de ir morar em Minas Gerais. Assim o fiz, mas demorei pouco tempo em BH e logo retornei à terrinha.

Um dia, o novo proprietário, meu irmão Gerson, convidou-me para visitar a propriedade. Aceitei. Ansioso, perambulei pelo terreno à procura dos locais que me fascinaram na adolescência, inutilmente. Tudo fora transformado para “aproveitamento” econômico da terra. Canaviais e estradas ocupavam a parte menos íngreme das matas e estas já não passavam de um arremedo daquelas que eu conhecera. Nos lugares da nascente e da bica que secaram, existia agora uma solta onde um gado bovino raquítico errava montanha acima e abaixo.
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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).



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