Um mineiro de fé, o Paulo Mendes Campos falou sobre “A Grande Guerra”, onde as árvores se defendiam dos homens produzindo novas árvores, em substituição às que eram abatidas.
Hoje essa estratégia vegetal não está mais dando certo porque os homens já ocuparam todos os lugares do Planeta, inclusive os mais íngremes. Assim, por falta de espaço, cada vez nascem menos árvores e vingam muito menos delas, ainda.
A razão desse ódio dos homens contra as plantas é difícil de entender. Não obstante a fúria contra os vegetais, que se observa nos atos praticados por 99,9% das pessoas, as plantas vivem no mundo só para o nosso bem. Elas são os melhores seres vivos que existem. Em contrapartida a nossa espécie comporta-se como o escorpião da história.
Diz a lenda que certa vez, no reino dos animais, o fogo estava a destruir toda uma ilha. A salvação dos bichos dependia de atravessar um rio largo e profundo para alcançar a liberdade, no outro lado. Os animais que sabiam nadar iam passando e se salvavam. Muitos deles, por bondade, socorriam insetos e outros seres menores transportando-os, também. Um deles, o escorpião, entretanto, foi rejeitado por todos. Quando estava prestes a morrer queimado, eis que surge um retardatário – o burro – a quem o inseto pediu clemência. O asno ponderou que não podia arriscar-se porque a crueldade do rabo-torto era conhecida de todos. Mas, o lacrau tanto fez que o quadrúpede, por caridade, cedeu. Lá, no meio do rio, porém, o escorpião não se conteve e mordeu o lombo do burro, envenenando-o. O asno voltou-se e em um gesto desesperado sentenciou: – “Por quê me envenenaste, se te fiz somente o bem? Não vês que iremos juntos morrer afogados?” O escorpião retrucou: – “Que fazer? É da minha natureza!”
Na verdade só a natureza humana é capaz de fazer o homem adotar procedimento tão vil como o de derrubar uma árvore ornamental, simplesmente porque ela o impede de avistar o mar, a partir de sua janela. Só o ser humano abate uma árvore frondosa, quase centenária, porque ela atrapalha a visibilidade de sua loja ou ainda, devido às folhas que caem e “sujam” a sua calçada e talvez, por causa dos pingos d’água que no inverno teimam em molhar a cabeça dos seus fregueses.
Já vi gente passar armada com facão a mutilar os galhos das plantas, nas calçadas, só por maldade. Vejo regularmente, funcionários da Prefeitura de Maceió, sem motivo, retirar cachos repletos de coquinhos imberbes, do coqueiral que ornamenta as nossas praias, deixando-os acintosamente acumulados em montes nas vias públicas, para todo mundo ver. Observo, diariamente, o progresso dos estabelecimentos queimadores de lenha, como padarias, restaurantes e pizzarias ao serem freqüentados por multidões, na minha cidade. Não passa despercebida a mim, a devoção das pessoas que homenageiam os santos incinerando madeira em fogueiras, nas festas de Santo Antonio, São João e São Pedro, no nordeste brasileiro ou devastando as matas em busca de mastros para os padroeiros, cuja moda pegou tal qual os vírus de doença ruim.
Não vou me alongar, mas, ontem mesmo, presenciei da minha varanda no sétimo andar, a mutilação de uma amendoeira situada a cerca de cem metros, na rua vizinha da que eu moro, a fim de que o letreiro luminoso da “Pousada do Mar” ficasse a descoberto.
Sei que você que me lê já deve estar de saco cheio de tanto ouvir falar de árvores. Reconheço e até gostaria de dar um basta nisso. Sucede que ainda não perdi a capacidade de indignação e por causa disso, sempre que vejo essas arbitrariedades contra os vegetais, não me contenho e passo para o papel, ou melhor, para o computador. Não me acostumei, ainda, com a negligência dos órgãos tutelares do meio-ambiente de Alagoas que fazem vista grossa para os desmandos contra essas indefesas plantas, mas sinto que estou sendo vencido pelo cansaço.
Semana que vem vou tentar transferir para os condôminos do meu prédio, parte da preocupação que dedico em proteger a coleção de amendoeiras de nossa rua. Escrevi um texto comovente, informando os inúmeros serviços que aquelas árvores nos prestam gratuitamente, como, servir de anteparo contra a poeira, abafar os ruídos, fornecer oxigênio, remover dióxido de carbono do ar, abrigar os pássaros, produzir frutos e realizar um trabalho que todos conhecem, o de dar sombra. Não lembrei outros serviços para não ser enfadonho e não falei da música que as copas frondosas emitem no balouçar do vento, porque segundo Mendes Campos, nem todo mundo possui ouvido fino, ou melhor, quase ninguém, um em mil, talvez nem tanto.
O texto poético “A Grande Guerra” que o escritor mineiro nos presenteou como advertência contra a nossa desatinada perseguição aos vegetais parece que não calou fundo, ainda, nos corações brasileiros apesar dos trágicos eventos naturais que estão a ocorrer com mais freqüência, atualmente. Contudo, uma coisa é certa: se não houver transformação radical no comportamento dos seres humanos, logo restará somente uma Guerra Perdida.
———-
José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).
Não há matéria relacionada.
13 de dezembro de 2010
4 de dezembro de 2010
28 de novembro de 2010
22 de novembro de 2010
15 de novembro de 2010
7 de novembro de 2010
4 de novembro de 2010
28 de outubro de 2010
21 de outubro de 2010
14 de outubro de 2010
7 de outubro de 2010
1 de outubro de 2010
27 de setembro de 2010
22 de setembro de 2010
16 de setembro de 2010
8 de setembro de 2010
2 de setembro de 2010
27 de agosto de 2010
22 de agosto de 2010
15 de agosto de 2010
10 de agosto de 2010
28 de julho de 2010
26 de julho de 2010
22 de julho de 2010
17 de julho de 2010
11 de julho de 2010
4 de julho de 2010
29 de junho de 2010
23 de junho de 2010
20 de junho de 2010
14 de junho de 2010
8 de junho de 2010
4 de junho de 2010
31 de maio de 2010
28 de maio de 2010
21 de maio de 2010
15 de maio de 2010
10 de maio de 2010
4 de maio de 2010
30 de abril de 2010
25 de abril de 2010
20 de abril de 2010
16 de abril de 2010
12 de abril de 2010
5 de abril de 2010
2 de abril de 2010
26 de março de 2010
21 de março de 2010
15 de março de 2010