VISÃO NORDESTINA

JOSÉ LUIZ MALTA ARGOLO
jlargolo@yahoo.com.br

4 de agosto de 2010 3:02 

A estória de Zé Barros

José Barros de Aleluia, roupeiro que morava embaixo da arquibancada, em um quartinho junto à rouparia, no antigo estádio da Pajuçara, Maceió/AL, que hoje tem o nome de Severiano Gomes Filho, homenagem ao abnegado ex-presidente do Clube de Regatas Brasil – CRB, era um daqueles sujeitos que se dedicam de corpo e alma a uma causa.

Como jamais casara, Zé Barros doara, por inteiro, seu coração ao CRB. Solteirão avesso à baderna, só tinha olhos para o trabalho. Ali, cuidava do material esportivo como se fosse um bem seu. Lavava, passava a ferro e dobrava com carinho, camisas, calções, meiões, palas, ataduras e ligas. As chuteiras, então, nem se fala; tratava-as com esmero. Mantinha-as sempre enceradas e flexíveis, graças ao uso freqüente de sebo de carneiro capado. Contava o material inúmeras vezes, para que não faltasse uma só peça e após cada partida ficava atento para que nada se extraviasse.

Na noite daquele sábado, Barros estava a cuidar dos materiais para o clássico com o Centro Sportivo Alagoano – CSA, marcado para o dia seguinte. Havia tempo de sobra até a hora do jogo, à tarde. Contudo, ele gostava de arrumar as coisas com antecedência, devagar, cuidadosamente, como se fosse um ritual.

Súbito, a porta se abre e uma lufada fria atinge seu rosto, concomitantemente com o apagar do candeeiro, que iluminava o recinto; enquanto uma voz conhecida e antipática cumprimentava-o dizendo: – “Diga aí, Barrinho! Quero meu material para treinar”.

Embora fosse uma pessoa pacata, Zé Barros não tolerava futrica; pior, ainda quando vinha com apelido. Uma ira cega invadiu seu corpo de cima a baixo. Só podia ser galhofa pedir material para treinar no escuro. Isso mesmo. O filho da mãe do Gabino queria fazer pilhéria e não fora a primeira vez. O cara, mesmo sem as pessoas lhe darem cabimento, trocava os pés pelas mãos. Barrinho?… Que ousadia!… Aquela matraca-da-quaresma não tinha respeito por ninguém, principalmente, pelos mais humildes, pensou. O roupeiro virou-se devagarzinho, como a medir as palavras. Em seguida atacou: – “Seu filho de rapariga, vá pedir material à sua mãe, na zona, não a mim que não sou palhaço!”

Como resposta veio um pontapé que lhe atingiu o traseiro, dando início a um embate corpóreo que só terminaria no gramado do campo de futebol do CRB, às primeiras horas da madrugada de domingo, após os litigantes caírem exaustos um ao lado do outro.

O sol já estava alto, quando um jovem atleta do Galo, João Carneiro Moura, depois de procurar em vão pelo roupeiro, nas dependências do Clube, encontrou-o a dormir ao ar livre, como se estivesse a curar-se de uma bebedeira. Moura futucou-o: – “Qui cachaça da peste é essa, Zé Barros? Acorda homem de Deus, mataram o Gabino!”.

O roupeiro estremeceu: – “Deixa de goga, João Moura! A gente trocou tapa a noite toda, mas foi no murro mesmo, e ninguém morreu não! Ói eu aqui; tou inteiro, num tou?”…

João Carneiro Moura sorriu paternalmente, interpretando as palavras do rapaz como um lapso de memória, desses que ocorrem quando as pessoas são acordadas, repentinamente. Por isso, ajudou-o a levantar-se, enquanto proclamava: -“Só se você brigou com a alma dele”.

Gabino Antônio Alves, ou simplesmente Gabino, irrequieto quarto-zagueiro do CRB, fora assassinado a golpes de cacete naquela mesma noite, em uma renhida luta corporal com três desordeiros, no bairro do Pontal da Barra.

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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).



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