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Diz a lenda que ao chegar no céu, o Alfaiate honesto sentou-se ao lado do Criador, de onde podia ver tudo o que se passava na terra. De repente, o Homem percebeu que uma mulher havia roubado um carretel de linha de sua amiga que morava próximo. Indignado, o Alfaiate atirou na ladra, lá do alto, o banquinho em que se encontrava sentado. Deus, então, repreendeu-o dizendo que se aquele procedimento fosse adotado ali, não sobraria mobília alguma no céu.
Acho que os descaminhos são muitos. Tantos que a justiça, talvez esteja a proceder como o “Todo Poderoso” que não deseja ver o céu sem os móveis.
Ocorre que devido à complacência das instituições, os alcaides alagoanos estão deitando e rolando. As prefeituras tornaram-se propriedade privada deles que dispõem do erário, a seu bel-prazer, a fim de se locupletarem. O descaramento é tão grande que se tornou amoral.
É como diz o matuto: aí é onde a porca torce o rabo. Uma sociedade que encara com indiferença a corrupção e faz apologia a riqueza material, indiscriminadamente, sem condenar o enriquecimento ilícito das pessoas, termina por degradar-se, inexoravelmente.
Alagoas é um caso perdido. Recentemente, o noticiário da Imprensa local destacava a falência das prefeituras, com algumas delas fechando as portas, até. Só se falava na situação desoladora, com os administradores municipais a dirigir apelos desesperados à Brasília. Nessa luta veio engajar-se nossa representação política, com assento no Congresso Nacional, reforçada pelo Governador do Estado.
O circo foi armado na Associação dos Municípios Alagoanos – AMA, onde os prefeitos de 103 municípios reuniram-se para reivindicar ao Governo Federal, acréscimo no repasse das verbas do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação – FUMDEB e do Fundo de Participação dos Municípios – FPM, que ultimamente vem sendo reduzido devido aos efeitos da crise.
Até aí tudo bem, porque cada um puxa as brasas para as suas respectivas sardinhas. Sucede que, concomitantemente com a deflagração do movimento reivindicatório, algumas prefeituras, de forma paradoxal, veiculavam propaganda de festas fora de época, em seus distritos, com a presença das famosas bandas de forró e afro-baianas. Essas que empestam nossa terra o ano todo.
Pode? Aqui, pode sim, porque ninguém dá um pio sequer. Cadê o Ministério Público Estadual? E o Tribunal de Contas? E a Receita Federal? E a Justiça? E os movimentos populares de cidadania?… O gato comeu.
Ora, esse descalabro precisa urgentemente de um freio. Mas, não pensem que o povão, por si só, vai dar um basta nisso, não. Faz-se necessário que a ação moralizadora venha de cima para baixo. Se as instituições quiserem elas podem fazer parar essa roubalheira. Instrumento não lhes falta. Ademais, os desvios do dinheiro público são tão acintosos que até os leigos conseguem descobrir o destino que tomaram. Na reunião da AMA, por exemplo, havia pelo menos umas 50 “pajeros” estacionadas à espera dos seus donos – os pobres prefeitos.
Em Alagoas, é público e notório que para enriquecer, o prefeito necessita apenas de uma única administração em município de médio porte e duas nos de menor tamanho. Nos grandes municípios eles podem dar-se ao luxo de administrar a prefeitura, por dois anos, transferir o poder para o vice, de sua confiança e candidatar-se a deputado, estadual ou federal. Esse artifício tem dado certo e os espertalhões estão por aí, nos parlamentos. O único problema é que o fato de irem ao pote com muita sede tem despertado a cobiça da oposição. Nesses entreveros não faltam conflitos; alguns resultando em mortes que, diga-se de passagem, não são apuradas a sua intelectualidade, quando muito, prende-se apenas o autor material.
Processos judiciais por corrupção, por compra de votos e outras safadezas, envolvendo políticos, estão abarrotando as prateleiras da justiça. O problema que a lentidão dos tribunais nunca alcança os mandatos políticos e como todo mundo sabe da existência dessa janela, não nos consta punição alguma aos larápios.
Agora, contudo, surge uma luz no fim do túnel: a presença do Conselho Nacional de Justiça e o Projeto ficha-limpa. Vamos esperar. Quem sabe, futuramente, as novas gerações poderão conhecer políticos melhores.
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José Luiz Argolo é alagoano, ex-conselheiro do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, fundador e presidente da SAMAN – Sociedade Ambientalista Mãe Natureza. É formado em Letras (CESMAC) e tem especialização em Solos e Meio-Ambiente (UFLA – Lavras/MG).
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